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O que realmente vivi em Torres del Paine

Muito mais que uma trilha. Muito mais que aventura. Uma mudança drástica no modo de pensar na vida. Esse é o poder do trekking

11 Dec2016

Quando comecei a praticar caminhadas e trekking, ano passado, queria algo para sair da rotina diária, mas não tinha ideia se onde isso poderia me levar. Apesar das fotos magníficas, elas são apenas a ponta do iceberg do que realmente vivi aqui.

Tecnicamente, foram longos 92 km de caminhada, em 5 dias, com uma mochila de 15 kg aproximadamente, pelo Circuito "O" do parque nacional Torres del Paine (trajeto encurtado devido a uma ponte desabada, o planejado era em torno de 130km), em meio a subidas e descidas, montanhas, florestas, descampados, banhados e pedregulhos. Um roteiro duro para alguém longe de ser um atleta e "metido a trilheiro".

Mas poucos sabem que o que buscava aqui não era apenas turismo, era um pouco mais do que isso. Uma viagem solitária, ao longo de alguns dias, buscava fazer uma pausa e reflexão sobre os já 33 anos vividos.

E o trekking, quando nos propomos a percorrer distâncias longas, desafiadoras e, principalmente, fora da nossa zona de conforto, trás a tona tudo isso de uma maneira bem impiedosa.

Depois de caminhar 30 km em apenas um dia, ao longo de subidas íngremes, no auge de seu esgotamento físico, em uma caminhada solitária, vem a tona todos os seus medos, frustrações, erros e angústias.

Só que o trekking nos ensina que, depois de um certo ponto do caminho, não há mais chance de desistir. O caminho mais curto para desistir é simplesmente seguir em frente. Ir adiante. Com bolhas nos pés, cãibras, feridas e dores, você, simplesmente, tem, como única opção, seguir em frente.

E é nessas horas que vem a tona suas fortalezas. Sua fé, suas certezas e seus valores. Pensar nas pessoas que você ama. Aquilo que realmente importa na sua vida. E são elas que te impulsionam a seguir sua jornada.

É um teste mental constante. Você aprende a ter (ou fortalecer) fé "na marra". Suas dores, os caminhos duros, a carga que você leva consigo. Seja material, seja emocional. Sentimentos negativos só atrapalham e dificultam a jornada. Mágoa, orgulho, apego. Tudo se deixa prá trás. O trekking nos ensina que devemos levar conosco o que essencial, e tudo que não é essencial é apenas peso em sua jornada.

Isso aprendi da maneira mais dura. Certo ponto do segundo dia, a mochila estava com uns 18kg e eu estava sentido muita dor pela carga carregada. Foi então que fiz uma boa reavaliação do que tinha na mochila. No refúgio que tinha na metade do caminho, deixei para trás várias mudas de roupa e alguma comida. Diminuí uns 4kg de coisas não tão essenciais assim. Desapego!

Assim como na vida, várias pessoas cruzam seu caminho, andam com você alguns kilometros, e ficam para trás ou vão adiante. Cada um segue seu ritmo, e cada um é responsável por seu caminho.

Às vezes, ouvimos a famosa frase "não olhe pra trás". Não dá. O trekking nos ensina, sim, a olhar prá trás. Olhar todo o caminho já trilhado, subido ou construído, nos dá força e orgulho do que já passamos e fizemos, e nos dá coragem para seguir subindo.

Em todo a essa jornada meio mística, no segundo dia, teve o episódio mais marcante. Já havia caminhado mais ou menos 25km no mencionado dia, encontro-me com um guarda do parque em caminho inverso (rota de monitoramento dos guardas). Daniel, seu nome. Aí trocamos informações, quanto falta pra chegar no próximo acampamento e blá blá blá. Ao se despedir, ele diz: "nos vemos en la próxima vida!". "Como?" Perguntei porque até imaginei que meu portunhol não estivesse ouvido direito... "Sí, nos vemos en la próxima vida, mi amigo!" Bah. Nessa hora a casa caiu. Não teve como segurar as lágrimas. A mensagem que tudo isso era realmente algo além de uma mera caminhada estava escancarada.

Foi uma grande jornada. Um grande desafio vencido. Saímos daqui muito mais forte mentalmente. Mas nos sentimos vencedores não por caminhar 92km. E sim por ter saído daqui melhores do que entramos. Por ter evoluído nossa alma.

Acho que vivi aqui o meu "Caminho de Santiago". A natureza grandiosa sempre me conectou facilmente a Deus.

Muita gente, mas muita gente mesmo, me ajudou a estar aqui, de uma maneira ou de outra. Obrigado, de coração, a todos que contribuíram nessa jornada!

Rafael Laimer Bilibio
Torres del Paine Dez/2016

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